Cássia Eller, grande cantora da década de 1990, soa ainda maior 20 anos após a morte no auge da carreira

    Foto: Capa do CD ‘Veneno vivo’, de 1998

    MEMÓRIA – Há cantoras que já nascem grandes. Mas que ficam ainda maiores com o passar do tempo, sobretudo quando já estão fora de cena. Cássia Rejane Eller (10 de dezembro de 1962 – 29 de dezembro de 2001), grande cantora do Brasil da década de 1990, parece ainda maior hoje, duas décadas após a morte precoce, ocorrida há exatos 20 anos em clínica de Laranjeiras, o bairro carioca poetizado por Nando Reis na letra de All star (2000), uma das músicas feitas pelo apaixonado compositor para celebrar Cássia em vida e a vida de Cássia.

    Por mais que Marisa Monte tenha ditado os padrões das cantoras naqueles anos 1990, se tornando “a” referência no panteão feminino da música pop brasileira da década, Cássia Eller foi o ponto fora da curva.

    Foi a voz de trovão ao mesmo tempo doce e selvagem que a indústria da música tentou domesticar no disco pop Cássia Eller (1994) e no belo e derradeiro álbum de estúdio dessa artista de origem carioca e vivência brasiliense – Com você… Meu mundo ficaria completo (1999), marco da conexão da feliz Cássia com Nando Reis.

    Foi a voz que, escapando por entre as frestas do sucesso que nunca ambicionou, se mostrava indomada no palco, habitat natural em que a cidadã por vezes até tímida dos bastidores soltava as feras e se transformava na cantora visceral que encarava músicas de Cazuza (1958 – 1990), Kurt Cobain (1967 – 1994) e Luiz Melodia (1951 – 2017), entre outros compositores afinados com a ideologia de Cássia Eller.

    Cássia se equilibrou entre o mainstream e a margem do mercado da música. E sintomaticamente saiu de cena, aos breves 39 anos, quando a improvável explosão nacional de álbum ao vivo gravado na série Acústico MTV pareceu naquele último ano de 2001 tê-la empurrado de vez para o olho do furacão. Um furacão no centro de outro.

    A discografia produzida por Cássia Eller em vida é extremamente coesa e totaliza oito álbuns lançados entre 1990 e 2001. Desde 2002, vários títulos póstumos vem sendo adicionados à obra fonográfica da artista através de exumação de material de arquivo que deverá desenterrar mais registros inéditos ao longo de 2022, ano em que Cássia completaria 60 anos.

    Nenhum desses discos póstumos desonrou a memória da artista. Contudo, o ouro está mesmo no que Cássia lançou em vida. Ainda há tempo de descobrir O marginal, segundo álbum da cantora, lançado com pouca visibilidade em 1992.

    O marginal talvez seja o disco que traduza com maior perfeição o espírito do som de Cássia Eller ao lado do álbum de estreia da cantora, batizado com o nome da artista e lançado em 1990. Há a intensidade e o nada-a-perder do underground nestes dois primeiros discos de Cássia Eller, cantora que fazia as próprias leis quando subia ao palco.

    Tivesse viva, é provável que a cantora tivesse se libertado do jugo da indústria fonográfica e tivesse voltado para o nicho indie em que cresceu artisticamente livre na Brasília (DF) punk dos anos 1980.

    Cássia Eller foi grande, inclusive por ter hasteado a bandeira de liberdade na música e na vida levada sem maquiagem. Talvez até por isso, mas também pelo legado ainda faiscante que deixou, Cássia Eller pareça ainda maior no Brasil de 2021, especialmente hoje, 29 de dezembro, quando faz 20 anos de morte que ainda soa irreal, mera trapaça da sorte que, não, não calou a voz da imensa cantora.

    Fonte – g1

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